Uma tecnologia desenvolvida no Ceará há mais de uma década está prestes a sair da produção em laboratório para ganhar escala industrial.
Jaguaribara (CE), região próxima ao Açude Castanhão e importante produtora de tilápia, receberá uma fábrica dedicada à produção de curativos biológicos feitos com a pele desse peixe. A unidade é apontada como a primeira do mundo voltada ao processamento em larga escala desse material para uso médico.
A tecnologia nasceu de pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal do Ceará (UFC), por meio do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), iniciadas em 2015. Ao longo do período, o trabalho envolveu outras instituições, como o Instituto Dr. José Frota, o Instituto de Apoio ao Queimado e o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). Até chegar aqui, os curativos já passaram por diferentes etapas de investigação clínica.
Porque a pele da tilápia
Processada e esterilizada, ela funciona como uma cobertura biológica para queimaduras. Por ter boa aderência à ferida, ajuda a proteger a área durante a cicatrização e reduz a necessidade de trocas frequentes de curativos, um procedimento que pode ser bastante doloroso para pacientes queimados.
Em um ensaio clínico de fase III realizado em Fortaleza, 115 pacientes adultos com queimaduras superficiais de espessura parcial foram divididos em dois grupos: 57 foram tratados com pele de tilápia e 58 receberam sulfadiazina de prata. No comparativo, os principais resultados foram:
- 9,7 dias para cicatrização, contra 10,2 dias no grupo tratado com sulfadiazina de prata
- 1,6 troca de curativo, em média, contra 4,9
- Menor necessidade de analgésicos e menores índices de dor
- Redução de 42,1% no custo médio relacionado ao tratamento por paciente naquele estudo
Tecnologia para ir mais longe
Na nova fábrica, a pele da tilápia passará por liofilização e esterilização com radiação gama. Com isso, os curativos poderão ser armazenados em temperatura ambiente e reidratados com soro fisiológico antes do uso, facilitando, inclusive, seu transporte para regiões remotas.
O início da produção em larga escala está previsto para 2028. Hoje, cerca de 600 curativos são produzidos por mês nos laboratórios da UFC. A expectativa divulgada é chegar 4,3 mil unidades, aproximadamente, por dia, já no primeiro ano.
Da piscicultura à saúde
Além do potencial para o cuidado de queimaduras e feridas, a inovação dá novo destino a um subproduto da piscicultura, a pele do peixe, que muitas vezes seria descartada.
Dessa forma, a ciência brasileira transforma pesquisa, resíduos e conhecimento em novas possibilidades para a saúde.
Fontes:
Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos
Estudo publicado no Plastic and Reconstructive Surgery, disponível no PubMed


